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O menu que prolonga a juventude
 

 
A medicina constata que certos alimentos previnem e até ajudam a curar doenças. Além disso, uma boa dieta pode atrasar o processo de envelhecimento em até vinte anos


Monica Weinberg (Retirado da Revista VEJA, junho de 2004)

A ciência dos alimentos dedica boa parte de suas pesquisas para identificar comidas que fazem mal à saúde. Há muito se sabe, por exemplo, que gordura bloqueia as artérias e carne vermelha em excesso é ruim para o coração – sem falar nos recém-condenados carboidratos, os mais novos vilões da obesidade, carro-chefe de males diversos. Na outra ponta, há as pesquisas que verificam quais são os alimentos "bons para a saúde". Frutas, verduras e legumes, em geral, fazem parte dessa cesta há décadas. Agora, especialistas começam a descortinar uma terceira frente sobre a qual quase nada se sabia até a década de 90: os alimentos funcionais. Eles vão além dos "saudáveis", porque, mais do que nutrir, fornecem ao organismo substâncias que auxiliam na prevenção e até no tratamento de doenças. Em pouco tempo, várias descobertas animadoras foram feitas. Estudos recém-divulgados autorizam afirmar que uma dieta funcional – ou seja, baseada em alimentos não só saudáveis, mas especificamente indicados para a prevenção de males – chega a reduzir em até 70% o risco de alguns tipos de câncer e em 80% as enfermidades do coração, no caso de indivíduos que não fumam e que praticam exercícios regulares. "A dieta saudável deixou de ser aquela que não faz mal à saúde", diz o americano Walter Willett, chefe da área de nutrição na Escola de Saúde Pública de Harvard e uma das maiores autoridades no assunto. "Hoje, é a que previne doenças e, em alguns casos, ajuda a tratá-las."

O médico americano Michael Roizen vai mais longe. Fundador de um dos mais respeitados centros de estudo da saúde e do metabolismo humano, o RealAge Institute, ele defende que a adoção de uma dieta específica, combinada a bons hábitos, ajuda a desacelerar o processo de envelhecimento. Mais que isso: pode rejuvenescer uma pessoa em até vinte anos. Roizen é autor do best-seller Idade Verdadeira, que vendeu mais de 3,5 milhões de cópias e foi traduzido em 22 idiomas. "Rejuvenescer", para Roizen, não quer dizer experimentar milagres como o sumiço repentino de rugas. Com base num cálculo que leva em conta dados epidemiológicos e estatísticas de longevidade, ele criou uma taxa de risco para calcular o peso dos hábitos alimentares sobre a saúde de uma pessoa. Dependendo desse resultado, ela pode estar sujeita aos mesmos riscos e doenças que alguém mais jovem ou mais velho – daí o conceito de "idade biológica" ou "real", desenvolvido pelo médico, que independe da cronologia. Ao longo de cinco anos, Roizen e sua equipe examinaram 25 000 estudos científicos relacionados a hábitos alimentares, saúde e longevidade. Sua conclusão: "De todos os fatores que afetam o envelhecimento, a dieta é o mais importante".

O interesse pelos benefícios que os alimentos podem trazer à saúde é antigo. Quatro séculos antes de Cristo, o grego Hipócrates, considerado o pai da medicina, já apregoava: "Faz da comida o teu remédio". Na Antiguidade, muito se especulava sobre o poder curativo de plantas como o alho (veja quadro). Um papiro egípcio de 1550 a.C. lista duas dezenas de medicamentos que, formulados à base da raiz, eram usados para tratar de dor de cabeça a inflamações na garganta. O uso do alho pelos antigos baseava-se no mesmo conhecimento empírico que estimulou muitas avós a dizer que comer fruta deixa a pele mais jovem e que um golinho de vinho "faz bem à saúde". Elas tinham razão, embora não soubessem exatamente o porquê. Hoje, já se tem por certo que tanto as frutas como as verduras são potentes antioxidantes naturais. Isso significa que têm capacidade para combater os temidos radicais livres – subproduto formado pelas células no processo de conversão do oxigênio em "combustível" para o corpo. As vitaminas C, E e A, presentes em abundância em frutas como a laranja, a manga e a maçã, têm o poder de reduzir essas moléculas tóxicas que, em excesso, comprometem o bom funcionamento do organismo e aceleram o seu envelhecimento. O poder das frutas é tamanho que Michael Roizen chega a afirmar que a ingestão de cinco porções delas por dia pode atrasar o relógio biológico em até quatro anos.

Outras práticas aprovadas pela experiência ganharam recentemente a chancela da ciência. Na década de 60, intrigava cientistas o fato de gregos e italianos – notórios apreciadores de uma boa e farta mesa – sofrerem menos de doenças cardíacas e terem expectativa de vida acima da média européia. A partir do estudo dessas populações, concluiu-se que um fator determinante para a longevidade de gregos e italianos era a dieta: a culinária mediterrânea é rica em azeite e nozes, por exemplo, dois poderosos redutores do LDL, o colesterol ruim. Também da observação da população na França nasceu o interesse científico pelo vinho tinto. Apesar de os franceses terem o hábito de comer queijo e manteiga a granel, eles conseguiam manter baixos níveis de doenças cardíacas. O fenômeno ficou conhecido como "o paradoxo francês". Um estudo conduzido pela Universidade Harvard demonstrou que um pigmento encontrado na casca das uvas vermelhas, os flavonóides, tem dupla função no que diz respeito à proteção do coração: aumenta as taxas do bom colesterol e ajuda a prevenir o enrijecimento das artérias.

Hoje, o vinho já exibe status oficial de redutor de doenças cardíacas – é prescrito por entidades como a respeitada American Dietetic Association e recomendado por nutricionistas de hospitais como o da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. O mesmo ocorreu com a aveia. Testada e aprovada em uma série de pesquisas, ganhou o selo de redutora de doenças cardíacas pela Food and Drug Administration, o órgão responsável pelo controle de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos. O aval da ciência às propriedades protetoras e rejuvenescedoras de alimentos fez com que muitos deles passassem a freqüentar os bloquinhos de receitas médicas. No Brasil, o cardiologista Protásio da Luz, do Instituto do Coração (Incor), responsável por uma pesquisa sobre o efeito dos flavonóides no coração, recomenda o consumo de suco de uva e vinho tinto aos seus pacientes, "excetuando-se no caso do vinho, é claro, os que têm tendência ao alcoolismo", diz. Na França, a bebida chega a ser servida em hospitais, em substituição ao tradicional suco de laranja, até há pouco tempo obrigatório nas bandejas dos doentes. Na escalada do vinho em direção ao status de "quase-remédio", a dose recomendada pelos organismos de saúde aumentou progressivamente. De três taças por semana, passou a uma por dia.

Os alimentos funcionais também já foram incorporados ao dia-a-dia de alguns dos principais hospitais brasileiros. Por meio de uma cartilha elaborada pelo Centro de Medicina Preventiva do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, pacientes aprendem que soja, azeite, suco de uva, chá verde e sardinha, por exemplo, são poderosos aliados na prevenção de males cardíacos. No Incor, em São Paulo, itens como carne vermelha, leite integral e manteiga – servidos até uma década atrás aos doentes – perderam espaço para peixes, leite de soja e azeite. A popularidade dos alimentos funcionais não está restrita à comunidade médica. A academia de ginástica Companhia Athletica, em São Paulo, contratou uma consultoria especializada em nutrição funcional (sim, esse já é um ramo de atuação entre especialistas), para incorporá-la ao bufê do seu restaurante. O novo menu ganhou saladas à base de castanhas e grãos de soja, molhos que levam azeite e semente de linhaça e vitaminas de frutas batidas com leite de soja. Segundo os nutricionistas, quem pratica atividade física e está preocupado com a boa forma vai encontrar nesses alimentos um aliado para prevenir lesões musculares, fadiga, stress, acne e envelhecimento.

A indústria já percebeu que está diante de uma mina de ouro e começa a investir pesado na tentativa de reproduzir em laboratório as propriedades benéficas dos alimentos, sintetizadas na forma de sucos, sopas e até sorvetes. O mercado mundial de funcionais industrializados, que só neste ano deve faturar algo próximo de 50 bilhões de dólares, cresceu 60% nos últimos cinco anos. A líder no ramo é a empresa holandesa DSM, que já colocou nas prateleiras européias, entre outros itens, balas de catequina – o fitoquímico presente no chá verde que ajuda a reduzir o risco de tumores malignos. A empresa fabrica ainda mais de trinta produtos à base de licopeno, substância que auxilia na prevenção do câncer de próstata e é encontrada em abundância no tomate, uma das vedetes da categoria dos funcionais.

Estudos conduzidos por Michael Roizen apontam que a ingestão semanal de dez colheres de molho de tomate ajuda a reduzir em até 50% o risco de onze tipos de câncer, entre eles os de esôfago e próstata. Em seu livro Idade Verdadeira, o médico afirma que o fruto é capaz de "rejuvenescer" em um ano quem o consome regularmente. Se a dieta por si só é um fator determinante para o envelhecimento, há outros quesitos que a rodeiam que merecem a mesma atenção, diz agora Roizen. Certos hábitos – revelados no momento em que se vai às compras e até mesmo nos utensílios que se tem na cozinha – podem ser tão vitais à saúde quanto a comida que vai ao prato. Em seu novo livro, A Cozinha da Idade Verdadeira, que será lançado no Brasil em agosto, o médico prega a importância de atitudes como, por exemplo, ler o rótulo dos produtos antes de colocá-los no carrinho de compras. A recomendação baseia-se em estudo feito pelo Instituto Nacional do Câncer, nos Estados Unidos, que mostra que as pessoas que cultivam esse hábito consomem 6% menos gorduras do que as que adquirem mercadorias sem saber o que elas contêm. Outro costume condenado pelo pesquisador é comer distraidamente – em pé, diante da geladeira ou na sala de televisão. Pesquisa conduzida com pacientes do próprio Roizen demonstrou que esse tipo de atitude é especialmente prejudicial àqueles com tendência à obesidade: faz com que a pessoa consuma 20% a mais de calorias do que se fizesse uma refeição à mesa. Quem come distraído também presta menos atenção ao que está comendo, lembra Roizen. Para o médico, a preocupação em selecionar alimentos de qualidade é um dos pilares da boa saúde – tanto que está na origem de outra série de recomendações que ele prescreve, como: sabatinar o garçom sobre o preparo do prato em uma ida ao restaurante, solicitar-lhe que troque ingredientes sempre que julgar necessário e, mais importante, pedir que o molho da salada venha à parte – de preferência, sem maionese. Pesquisa feita pelo governo americano chegou à espantosa conclusão de que, na faixa etária de 20 a 30 anos, as mulheres consomem, em média, metade de suas calorias diárias só em molho de salada. Entre os hábitos benéficos para a saúde, Roizen lista o costume de manter as frutas em local visível na cozinha. Estudo publicado no American Journal of Clinical Nutrition mostra que 80% das pessoas, movidas pela fome, escolhem o primeiro alimento que atravessa seu campo de visão. Melhor, então, que sejam as frutas.

Qualidades atestadas, os alimentos funcionais de nada servem, alertam especialistas, se: 1) não forem consumidos com regularidade – como os remédios, só têm efeito no combate às doenças quando ingeridos nas quantidades adequadas – e 2) a dieta como um todo não for saudável. É inútil empanturrar-se de aveia no café-da-manhã e devorar hambúrgueres com refrigerante no almoço. "A fórmula ideal para prevenir doenças com o auxílio dos alimentos é combinar na dieta o maior número possível de substâncias benéficas", diz o médico Walter Willett.

O entusiasmo dos cientistas pelos poderes dos alimentos funcionais pode ser medido pela magnitude de uma pesquisa que começa a ser desenvolvida pelo World Cancer Research Fund, órgão internacional especializado no estudo do câncer. Na semana passada, o instituto anunciou a largada de um megaprojeto que pretende ampliar em escala inédita o conhecimento sobre o impacto dos alimentos no combate à doença. O trabalho vai envolver cientistas dos melhores centros de pesquisa do mundo. Divididos em grupos, cada um se dedicará a desvendar a contribuição que os alimentos podem dar à prevenção de um determinado tipo de câncer. O Word Cancer Research não é o único órgão interessado no tema. Neste momento, sob os microscópios de pesquisadores de todo o mundo, estão cogumelos, alcachofras, canela, chocolate e curry, por exemplo – todos potenciais aliados na prevenção de males diversos. No Brasil, o Incor vai inaugurar em breve um núcleo de estudos exclusivamente voltado para pesquisas com café. Desconfia-se que a bebida pode ajudar a evitar doenças cardiovasculares, a causa número 1 de mortes no Brasil e no mundo. A fonte da juventude e da longevidade, quem diria, está logo ali, na sua cozinha.


10 alimentos para viver mais

Conheça alguns dos alimentos que a ciência já comprovou serem capazes de prevenir doenças e a quantidade indicada para potencializar seus benefícios*


AVEIA

Ajuda a diminuir o colesterol ruim, o LDL. Ganhou o selo de redutor do risco de doenças cardíacas da FDA, agência americana de controle de alimentos e remédios.
Quantidade recomendada:
40 gramas por dia de farelo ou 60 gramas da farinha.

ALHO
Reduz a pressão arterial e protege o coração ao diminuir a taxa de colesterol ruim e aumentar os níveis do colesterol bom, o HDL. Pesquisas indicam que pode ajudar na prevenção de tumores malignos.
Quantidade recomendada: um dente por dia (para diminuir o colesterol e a pressão arterial).

AZEITE DE OLIVA
Auxilia na redução do LDL. Sua ingestão no lugar de margarina ou manteiga pode reduzir em até 40% o risco de doenças do coração.
Quantidade recomendada: 15 mililitros por dia ou uma colher (de sopa rasa).

CASTANHA-DO-PARÁ
Assim como noz, pistache e amêndoa, auxilia na prevenção de problemas cardíacos. Também ganhou o selo de redutora de doenças cardiovasculares da FDA.
Quantidade recomendada:
30 gramas por dia ou de cinco a seis unidades.

CHÁ VERDE
Auxilia na prevenção de tumores malignos. Estudos indicam ainda que pode diminuir as doenças do coração, prevenir pedras nos rins e auxiliar no tratamento da obesidade.
Quantidade recomendada: De quatro a seis xícaras por dia (para reduzir os riscos de gastrite e câncer no esôfago).
 

MAÇÃ
Ajuda a prevenir tumores malignos, diz o médico Michael Roizen. O consumo regular de frutas variadas auxilia na redução de doenças cardíacas e da pressão sanguínea, além de evitar doenças oculares como catarata.
Quantidade recomendada: cinco porções de frutas por dia
.

PEIXES
Os peixes ricos em ômega 3, como a sardinha, o bacalhau e o salmão, são poderosos aliados na prevenção de infartos e derrames. Estudos indicam também que reduzem dores de artrite, melhoram a depressão e protegem o cérebro contra doenças como o mal de Alzheimer.
Quantidade recomendada: pelo menos
180 gramas por semana (para reduzir o risco de doenças cardiovasculares) .

SOJA
Ajuda a reduzir o risco de doenças cardiovasculares, segundo a FDA. Seu consumo regular pode diminuir os níveis de colesterol ruim em mais de 10%. Há indicações de que também ajuda a amenizar os incômodos da menopausa e a prevenir o câncer de mama e de cólon.
Quantidade recomendada:
150 gramas de grão de soja por dia, o equivalente a uma xícara de chá (para reduzir o colesterol).

TOMATE
Auxilia na prevenção do câncer de próstata.
Quantidade recomendada: uma colher e meia (sopa) de molho de tomate por dia.


VINHO TINTO

A uva vermelha, presente no vinho ou no suco, ajuda a aumentar o colesterol bom e evita o acúmulo de gordura nas artérias, prevenindo doenças do coração.
Quantidade recomendada: dois copos de suco de uva ou uma taça de vinho tinto por dia
.

 

* As quantidades de alimentos indicadas se referem apenas à prevenção das doenças especificadas. A dosagem ideal para o combate das demais ainda não foi identificada pelos pesquisadores

 

 

 

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