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Estamos tomando remédios demais?
 

 

A indústria farmacêutica se esforça para fazer produtos cada vez mais seguros e eficazes. Mas há sempre os perigos da automedicação e os riscos inerentes aos medicamentos.

Publicado na Veja.
Edição 1890, 2 de fevereiro de 2005.

Paula Neiva

O ano de 2004 foi um dos mais negativos para a indústria farmacêutica mundial. Dois episódios, em especial, macularam a imagem de alguns dos maiores fabricantes de remédios. O mais estrondoso deles ocorreu em setembro, quando o laboratório americano Merck & Co. baniu do mercado um de seus produtos mais conhecidos – o antiinflamatório Vioxx. Descobriu-se que o consumo diário de 25 miligramas do medicamento, por mais de dezoito meses, dobraria os riscos de infartos e derrames. Os prejuízos financeiros decorrentes da suspensão do Vioxx chegaram a 30 bilhões de dólares. O outro episódio ocorrera sete meses antes. Naquela data, a FDA, a agência americana de controle de remédios e alimentos, alertou formalmente a comunidade médica sobre os riscos de suicídio entre crianças e adolescentes tratados com antidepressivos como o Prozac, o Zoloft, o Efexor e o Cipramil. Os fabricantes foram obrigados a imprimir na bula desses remédios advertências sobre o perigo oferecido por eles. Esses escândalos não causaram apenas prejuízos financeiros. Pior do que isso, a indústria passou a ser vista com desconfiança.

Um levantamento realizado recentemente pela consultoria Harris Interactive mostrou que a crença dos americanos nos laboratórios farmacêuticos despencou. Em 1997, 80% dos entrevistados defendiam o trabalho desenvolvido pela indústria e acreditavam que ela fazia o bem para a população. No ano passado, pouco mais de 40% dos americanos mantinham essa opinião. Para se ter uma idéia do ponto a que se chegou, segundo a mesma pesquisa, o índice de confiança nos produtores de cigarro foi de 30%. Isso nos Estados Unidos – o maior mercado de remédios do mundo e o país onde fumar é quase um crime. Na esteira desses acontecimentos, passaram a fazer barulho movimentos como o "Un-Drugging of America". Seus seguidores pregam uma redução drástica no consumo de medicamentos. Não há dúvida que a reação a casos como o do Vioxx traz uma dose considerável de exagero. Esses episódios mostram brechas nos mecanismos de teste e vigilância, mas não bastam para condenar toda uma indústria. Uma pergunta, contudo, é legítima e oportuna: será que tomamos remédio demais, e da maneira inadequada?

MAUS HÁBITOS
O brasileiro sai da farmácia com mais remédios do que queria comprar quando entrou

O brasileiro tem apreço especial por um remedinho. Faz parte da nossa cultura receitar analgésico para os amigos, comprar a pomada prescrita pela manicure, o antibiótico que a avó recomendou ou as pílulas que o colega de trabalho usa para diminuir o stress. A proporção assustadora que o hábito da automedicação tomou deve-se, historicamente, à falta de fiscalização e repressão suficientes para evitá-lo. Mesmo sem receita, é fácil comprar remédios que exigem prescrição. Além disso, os baixos honorários e o despreparo de alguns médicos fazem com que as consultas sejam cada vez mais rápidas e a relação de cumplicidade do paciente para com o profissional de saúde, reduzida. Prefere-se muitas vezes outorgar ao massagista ou balconista de farmácia – outros profissionais vestidos de branco – a autoridade para prescrever medicamentos.

O mercado farmacêutico brasileiro é composto de quase 400 indústrias e cerca de 60 000 farmácias – o dobro do número máximo de estabelecimentos do tipo por habitante que a Organização Mundial de Saúde recomenda. As vendas diretas ao consumidor somam 5 bilhões de dólares anuais. A quantia confere ao Brasil o décimo lugar na lista dos países que mais vendem medicamentos no mundo, segundo a consultoria americana IMS Health. Os Estados Unidos são o líder, com quase 175 bilhões de dólares anuais. As empresas investem pesado em marketing. Calcula-se que até 20% do faturamento do remédio seja destinado a essa finalidade. Isso inclui várias frentes de trabalho, como as que atuam junto aos médicos e às farmácias, além da publicidade e propaganda direta ao consumidor, quando possível. A publicidade direcionada para médicos inclui de prosaicos jogos de canetas e blocos a viagens de primeira classe para o exterior, com direito a acompanhante e a hospedagem em hotéis cinco-estrelas.

Uma pesquisa realizada no fim do ano passado pela Associação Brasileira da Indústria de Medicamentos Isentos de Prescrição é reveladora. Cerca de 15% das compras de remédios vendidos sem receita não foram planejadas. Ou seja, o consumidor sai da farmácia com mais remédios do que pensava em levar para casa quando entrou. Além disso, uma de cada quatro pessoas recorre à ajuda do balconista ou do farmacêutico para escolher o melhor remédio para essa ou aquela doença. Aí entra em cena o jogo da "empurroterapia". Assim como ocorre com os médicos, muitos laboratórios oferecem prêmios aos atendentes que mais vendem seus produtos. Os brindes vão de simples sacolas a geladeiras. Juntam-se, assim, o balconista louco para vender e o brasileiro ávido por uma nova pílula. "O brasileiro precisa cultivar o autocontrole quando o assunto são medicamentos", diz o reumatologista Daniel Feldman, especialista em dor, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo.

A automedicação produz inúmeros riscos. De acordo com os especialistas, cerca de 40% das pessoas que tomam remédios o fazem desnecessariamente ou de maneira inadequada. Segundo estatísticas do governo federal, a cada 25 minutos uma pessoa sofre intoxicação por medicamentos. "Todas as substâncias contidas nos remédios oferecem riscos. Nenhuma droga é feita de água com açúcar", diz Antonio Carlos Lopes, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica. "O ideal, portanto, é não tomar remédio para qualquer dorzinha ou probleminha de saúde. Deve-se usá-lo apenas quando é imprescindível e recomendado por um profissional especializado." Como dizia o médico suíço Paracelso (1493-1541), "a diferença entre o remédio e o veneno está na dose".

Apesar das críticas à indústria farmacêutica, é inegável sua enorme importância. Ela é a grande responsável pelo controle de centenas de doenças que poderiam dizimar populações inteiras e condenar milhões de pessoas ao sofrimento. "Os medicamentos mudaram a história natural das doenças", diz o nefrologista Decio Mion, professor da Universidade de São Paulo. Um dos maiores exemplos da revolução proporcionada pelos fármacos está no tratamento da hipertensão arterial. A pressão alta é responsável por 80% dos derrames e 60% dos infartos. Até a década de 40, porém, os médicos desconheciam os riscos da pressão alta e, por isso, não havia investimentos na descoberta de remédios que combatessem a doença. A partir da década de 80, o lançamento de anti-hipertensivos muito potentes e bem tolerados pelos pacientes inaugurou uma nova era no controle da doença. O resultado foi a queda pela metade das mortes causadas por infartos e derrames. Além de salvar vidas, a criação de novos remédios proporciona aos doentes uma melhora impressionante na qualidade de vida. Mulheres vítimas de câncer de mama dispõem hoje de quimioterápicos que não produzem tantos efeitos colaterais devastadores como os dos medicamentos do passado recente.

Para a formulação de substâncias cada vez mais potentes, os investimentos em pesquisas são astronômicos. Calcula-se que mais de 80% de todos os medicamentos desenvolvidos até hoje tiveram patrocínio integral ou parcial dos laboratórios farmacêuticos. As maiores indústrias farmacêuticas do mundo faturam, em conjunto, cerca de 500 bilhões de dólares anualmente. Estima-se que essas empresas gastem cerca de 40 bilhões de dólares por ano na pesquisa de moléculas inéditas ou em novas indicações para os produtos que já existem. Atualmente, o custo para que uma única nova substância chegue ao mercado ultrapassa 800 milhões de dólares.

Obviamente manter hábitos como uma dieta equilibrada, fazer exercícios físicos regulares, não fumar e evitar o stress é a chave para a vida saudável. Mesmo com os custos altos, os riscos e os efeitos secundários adversos, os medicamentos são um dos pilares da vida moderna. A grande questão é o que fazer para evitar que o remédio se transforme em veneno. Do ponto de vista do paciente a resposta é simples: bom senso. Em caso de dúvida, procure um médico. Para os laboratórios e as autoridades de saúde, a receita é redobrar a vigilância.

 

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